quarta-feira, 2 de junho de 2010

Não conheço aquela enfermeira. Está sentada numa cadeira ao lado da cama do R.. Passa-lhe a mão esquerda pelos cabelos loiros e compridos, molhados de suor. Ontem, esses mesmos cabelos estavam lavados e penteados para trás. Tomava banho todas as noites e de pijama ia para a sala de trabalho para as enfermeiras o picarem, pela milésima vez, mais uma vez, ureia, creatinina, hemoglobina. E a pele a ficar mais roxa, a barriga maior e a respiração mais difícil. E eu: Como te sentes hoje, R.? Fixe, estou fixe. Hoje, por acaso, estou mesmo fixe. A ver se não são as melhoras da morte, a Enfermeira S. desconfiada. O cabelo loiro, lavado, penteado para trás. E agora o cabelo loiro, molhado de suor e despenteado e o pedido de ajuda logo pela manhã: Adormeçam-me, por favor, vou morrer. A mão direita da enfermeira que eu não conheço segura a mão dele que já não responde e a esquerda continua a passar no cabelo, em movimentos repetidos e calmos. Devia ficar a olhar para ele, a despedir-me dele. Quem sabe a rezar por ele. É sexta-feira à tarde e sou a primeira a oferecer-me para ir fazer um procedimento noutro hospital. E vou-me embora, a enfermeira não se mexe e eu vou-me embora, acobardada. À noite tenho suores frios e penso na morte sentada aos pés daquela cama. Depois a vida continua, como sempre. Esqueço tudo, vou sair à noite, discuto com o meu namorado, fazemos as pazes. No dia seguinte telefona-me a minha colega. Morreu rodeado pela família, diz-me. Ninguém nos prepara para isto, acrescenta. Ela também se foi embora. É verdade. Ensinaram-nos a salvar, ensinaram-nos a agir, mas nunca ninguém nos ensinou a ficar sentados como aquela enfermeira, lado a lado com a morte, uma mão no cabelo e a outra na mão dele... até ao fim.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Não sei quem é que se lembrou de dar um nome ao recipiente para onde escorrem os drenos torácicos. Alguém se lembrou. Provavelmente o meu chefe. Adiante. Toda a gente chama a esse recipiente o Bobby. Os miúdos adoram. Os miúdos têm essa característica incrível de adorar pequenos pormenores, que nós, os adultos, vemos e vivemos como verdadeiras tragédias. Eles não. São operados ao coração, têm de andar com uma caixinha atrás, presa a eles por uns tubos que drenam sangue, e eis que a caixa é o Bobby e tudo isto se torna, de repente e inexplicavelmente, divertidíssimo. Pois bem. Já estão a ver qual é o problema aqui. A partir do momento em que a criança conhece o Bobby, que não é uma simples caixa incómoda e desagradável, mas o Bobby (o nome confere-lhe uma faceta de animal de estimação...), como retirar esse pequeno prazer à criança? Em suma. No outro dia, fui retirar o Bobby ao R., que chorou desalmadamente, em pânico. Afinal não custou assim tanto... pensou ele no final, enquanto enxugava as lágrimas. Eu a olhar para ele e a contar em contagem decrescente... 3, 2, 1... logo ele: Onde está o meu Bobby? o que é que fizeram ao meu Bobby?! Pai, roubaram-me o Bobby!!

terça-feira, 4 de maio de 2010

Companheirismo

Chamávamos-lhes a turminha dos quatro. Andavam sempre de mãos dadas, aos pares. Menino com menina. Quando foi para retirar os fios de pacemaker, foram todos em fila indiana. A primeira foi a C.. O cenário foi o que já se esperava. Chorou, chorou, chorou e, no final, eu Quem foi a menina mais bonita do mundo? Quem é que se portou muito, muito bem? E ela, por entre snifadelas, ainda com a lágrima no canto do olho Fui eu... Daí baixa a t-shirt, recompõe o cabelo e segue-me. Nesta altura já estou eu ao lado do segundo da fila, o R., assustadíssimo, pelo sim, pelo não, sei lá o que me vão fazer, o melhor é berrar a alto e a bom som. Aí a C. surpreende-me, agacha-se ao lado do R. e diz com um tom de voz um tanto ou quanto autoritário Vá, R., não custa nada e tem de ser. Esta era a fase em que eu dizia que ele, com medo de ser considerado mais medricas do que uma rapariga, se tinha portado bem. Não, não portou. Mas durante todo o tempo que eu estive naquilo, ela não olhou para o lado, nem se mexeu. E ele agarrou a mão dela na dele até ao fim.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Poder de argumentação

Há miúdos que, não obstante medirem menos de metro e meio de altura, têm um poder de argumentação fantástico. Quando nos deparamos com uma destas situações, a discussão, porque temos forçosamente que a ganhar, acaba invariavelmente de uma forma injusta para a criança, connosco a abusarmos do poder dos nossos cabelos brancos (sim, já tenho cabelos brancos...) para dizer qualquer coisa pouco convincente, do género: Eu tenho razão, porque sim. Pois foi exactamente o que aconteceu no outro dia quando um rapazito de 6 anos me pediu encarecidamente para eu não lhe tirar os drenos, não por simples teimosia ou porque tivesse medo, como ele me garantiu, mas porque se tinha afeiçoado aos ditos tubos e porque é que eu os tinha que tirar, já que ele se encarregava de os levar para casa e de fazer ele pessoalmente o penso todos os dias para o resto da vida dele. Olhei para o miúdo, pensei durante dois segundos, e disse: Boa tentativa... Mas agora vamos lá tirar esses drenos! Mais uma vez, fiz batota, claro. Ele obviamente tinha ganho a discussão mas, no final, foi feita a minha vontade. Quão injusta pode ser a vida quando se tem 6 anos?

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O que muitos médicos não sabem e que não vem no CV

"We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. And medicine, law, business, engineering, these are noble pursuits and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for. To quote from Whitman, "O me! O life!... of the questions of these recurring; of the endless trains of the faithless... of cities filled with the foolish; what good amid these, O me, O life?" Answer. That you are here - that life exists, and identity; that the powerful play goes on and you may contribute a verse. That the powerful play *goes on* and you may contribute a verse. What will your verse be?" Dead Poets Society, 1989

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sempre sube

Olho para a senhora de 48 anos sentada à minha frente. Os meus doentes costumam ter um décimo desta idade e, frequentemente, menos do que isso. Imagino 10 bebés empoleirados em cima dos ombros uns dos outros que, no conjunto, fariam o tamanho da doente. Mas ela já vai lançada e, por isso, rapidamente os bebés se desfazem e eu começo a ouvi-la. Doutora, eu sempre sube que tinha um sopro. Sempre sube. Ainda era solteira quando sube que tinha um sopro e, entretanto, já tive 3 filhos e já fui operada 2 vezes, veja lá. Também sempre me cansei, mas eu pensei que isso fosse de trabalhar o dia inteiro com a enxada, sabe? Eu faço agricultura e é um trabalho muito duro, a enxada. E por isso nunca falei a ninguém do sopro. Pois que vai a minha médica de família aqui há uns tempos, ouviu o sopro e mandou-me para o médico do coração e ele é que me mandou para aqui. A senhora já tem isto há 48 anos, dona G., disse ele. Disse mesmo assim: a senhora já tem isto há 48 anos, dona G.
O que a senhora G. já tem há 48 anos é um buraco no coração do tamanho de uma amêndoa. O buraco fica entre as duas aurículas e deixa passar sangue que, em condições normais, iria para os pulmões e não para o corpo. Passando uma noite no hospital e fazendo um procedimento relativamente simples, o problema fica resolvido. Sinto um misto de alegria e tristeza. Podia ser mãe ou mesmo avó de um dos meus doentes e passou a vida cansada, aceitando o facto com naturalidade, não se queixando nunca, nunca deixando de trabalhar. Apesar disso, ainda é jovem. Tem 48 anos e a sua nova vida estás prestes a começar.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Dia das mentiras

Ainda ninguém me pregou uma partida hoje e o dia está quase a acabar, pensei eu minutos antes de o telefone da urgência tocar no seu toque histérico e irritante que costumam ter os telemóveis das urgências e que eu acho que tem como intuito accionar o botão do sistema nervoso simpático (pai da adrenalina e congéneres) antes mesmo de ouvir a má notícia. Rápido, doutora, o bebé deixou de respirar!, disseram do outro lado. Eu lá fui a correr, mas claro que isto não seria mais do que uma partida, uma mentirinha inocente do dia das mentiras. Eu chegaria lá abaixo, suada e ofegante, e estariam todos a congratular o engraçadinho criador da ideia. Era eu a descer as escadas e eles já lá em baixo a rirem-se da minha ingenuidade. Eu a entrar assustada sala adentro e o bebé a dormir confortavelmente ao colo de um enfermeiro. Mas não. Quando chego à sala, o cenário era, estranhamente, o que sinteticamente me tinham descrito ao telefone. Realmente. Bebé cardiopata não brinca em serviço. Nem no dia das mentiras.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Segundas oportunidades

Ainda bem que não me enforquei... Doutora, o bebé está a chorar... Lá fui eu, escada abaixo. E, vejam lá, o mesmo bebé, na mesma noite, a necessitar outra vez de um tubo goela abaixo (um tubo maior que não o deixasse chorar) e eu a pô-lo sem hesitações, sem desculpe, colega. Na maior. Parece que, afinal, ainda não sou um caso desesperado! E sempre há anti-depressivos de acção rápida; chamam-se segundas oportunidades!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Falhar

Não consegui entubar um bebé quando foi preciso. A anestesista ao meu lado substituiu-me, sem grande paciência, logo a seguir e fez o seu trabalho sem dificuldade nenhuma. Desculpe lá, colega, acrescentou no final. Odeio que me chamem de colega. Aos enfermeiros avisei antes de subir: Qualquer coisa, eu estarei lá em cima a enforcar-me. Devia haver antidepressivos de acção rápida...

domingo, 28 de março de 2010

The glad game

Pergunto-me o que diria a Pollyanna nesta situação. Qual é o lado positivo de ter uma criança com cardiopatia? Não há dúvida de que todo um conjunto de problemas desaparece automaticamente. Quem passa fome também não se preocupa com a avaria do jacuzzi. Até há umas semanas a minha criança era normal, diz-me a mãe. Como outra criança qualquer. Falava, brincava, comia sozinha. Às vezes apetece-me atirar a cara para o lado, como a Pollyanna faz na última cena do filme, e dizer: "It's a stupid game (the glad game). I don't want to play it anymore."

sexta-feira, 26 de março de 2010

Coração a brincar

A fazer eco a uma menina de 3 anos:
- Olha, estás a ver, isto é o teu coração. Tens aqui 4 buracos e isto azul e vermelho é o teu sangue. Dúvidas?
- Onde está o meu coração verdadeiro?

Em treino

Claro que, para ser sincera, eu sozinha ainda faço muito pouco. Mal sabia eu, quando fui para Medicina, que este curso era ad eternum, ou talvez não ad eternum (sempre tive tendência para ser um pouco melodramática), mas pelo menos ad 31 anos, isto se não houver filhos pelo meio (não há...), chumbos (não houve...) ou outras intercorrências que teriam elevado a fasquia dos 31 para uma idade que, digam o que disserem (ah, em todas as profissões temos sempre de estar actualizados!), não se coaduna com fazer exames e estudar pelo livro, 12h por dias durante meses, como se estivéssemos na escolinha. No outro dia o meu chefe repreendeu-me, dizendo, não publicas porque és uma calona. Calona. Em dois segundos revi o meu percurso escolar, a primária onde ajudava os alunos mais fracos a acabarem os testes, a escola alemã onde ganhava anualmente o prémio da melhor aluna, a escola da cidade universitária onde era provavelmente a única que fazer os trabalhos de casa, os exames nacionais em que tive 100%, os exames na faculdade que fiz fielmente sempre em primeira época, o exame do Harrison para o qual estudei durante um ano, finalmente a especialidade, um horário claramente superior às 40h do papel, já para não falar em exames, bancos pagos em horas incómodas... e tudo bem, eu gosto, não me queixo. Mas no fim de isto tudo o que é que eu sou?... Uma calona. Claro. Não consigo pensar em nenhuma palavra que descreva tão bem o meu percurso até aqui. Porque ao meu lado há quem tenha passado exactamente por aquilo que eu passei, mas que continua a ser espectacular e a escrever e a publicar e a transpôr todos os limites possíveis. "Ah, mas foi a profissão que escolheste!" É verdade, mas relembro, que eu vim parar aqui por puro engano. A sério que adorava saber... Afinal, de que massa são feitos os meus colegas?

Coração amarrotado

Como eu vim aqui parar é puro mistério. Durante toda a minha infância e adolescência bastava-me pensar numa gota de sangue que caía redonda no meio do chão, e hoje estou sentada a fazer ecos a uma miúda ruiva de 4 anos que esburaquei ontem à tarde. Sentimentos em relação a isso? Algum orgulho e satisfação pessoal por a menina estar bem agora e olhar espantada para o eco e fazer-me todo um role de perguntas, para concluir no final: "Muito giro, já percebi tudo.", sair da maca de um salto, ainda com creme no peito, eu espantada a olhar para ela, e ela já a caminho de uma folha de papel onde se apressa a desenhar um coração daqueles perfeitos, com duas partes simétricas, que desenhávamos em miúdos e que eu já não via há séculos, amarrotar o papel, dar-mo e rematar com "Este era o meu coração. Um coração amarrotado.". Alisa a folha por entre as minhas mãos e acrescenta triunfante "E isto foi o que tu fizeste, alisaste-o!" Sorri com satisfação. Eu própria não o teria dito melhor.