terça-feira, 28 de agosto de 2012

No mundo da Medicina (como de resto em qualquer parte, suponho...) há dois grupos de pessoas. As pessoas que fazem o mundo avançar e os outros. Eu, claramente, faço parte do segundo grupo. O meu chefe faz parte do primeiro. Fico contente que existam pessoas que façam o mundo avançar. Essas são as pessoas que descobrem a cura para o cancro, desenvolvem vacinas contra a S.I.D.A., salvam doentes, escrevem artigos, enfim... Estão a ver o género. A verdade é que a maior parte do meu tempo é passada a fazer outro tipo de coisas. À cabeça, relatórios. Os relatórios ocupam um lugar central na vida de qualquer interno ou recém-especialista. São sempre para ontem e, como Portugal vive à conta de "papéis", são sempre muito urgentes e essenciais para a maior parte dos doentes que, em média, precisa de três relatórios por ano. Talvez a segunda actividade que me ocupa mais tempo é a luta constante por vagas. Não há doente que se consiga salvar sem antes batalhar um mundo inteiro por uma vaga nos cuidados intensivos. E para haver essa vaga nos cuidados intensivos, o cabo dos trabalhos para arranjar uma vaga na enfermaria. Troca-se o doente da nossa enfermaria para a enfermaria de adultos, vem o doente dos intensivos para a nossa enfermaria e eis que aparece então a vaga dos intensivos, isto tudo com muitos "por favor" e "desculpe" como se do nosso próprio filho se tratasse. Enfim... Um truca-truca de dontes escada acima, escada abaixo, tal qual as escadas rolantes do metro. Num lugar de menor destaque, mas não desprezável, lá estou eu a esclarecer mal-entendidos, das enfermeiras com o meu chefe, dos doentes com a administrativa e dos outros colegas comigo. Tenho ideia que se falássemos línguas diferentes, não mudava grande coisa. Aqui ninguém se entende, pior, entende-se mal, aplica juízos de valor e acabamos todos numa grande embrulhada, de costas voltadas uns para os outros. E, por fim, nas horas vagas, vejo doentes.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Não conheço aquela enfermeira. Está sentada numa cadeira ao lado da cama do R.. Passa-lhe a mão esquerda pelos cabelos loiros e compridos, molhados de suor. Ontem, esses mesmos cabelos estavam lavados e penteados para trás. Tomava banho todas as noites e de pijama ia para a sala de trabalho para as enfermeiras o picarem, pela milésima vez, mais uma vez, ureia, creatinina, hemoglobina. E a pele a ficar mais roxa, a barriga maior e a respiração mais difícil. E eu: Como te sentes hoje, R.? Fixe, estou fixe. Hoje, por acaso, estou mesmo fixe. A ver se não são as melhoras da morte, a Enfermeira S. desconfiada. O cabelo loiro, lavado, penteado para trás. E agora o cabelo loiro, molhado de suor e despenteado e o pedido de ajuda logo pela manhã: Adormeçam-me, por favor, vou morrer. A mão direita da enfermeira que eu não conheço segura a mão dele que já não responde e a esquerda continua a passar no cabelo, em movimentos repetidos e calmos. Devia ficar a olhar para ele, a despedir-me dele. Quem sabe a rezar por ele. É sexta-feira à tarde e sou a primeira a oferecer-me para ir fazer um procedimento noutro hospital. E vou-me embora, a enfermeira não se mexe e eu vou-me embora, acobardada. À noite tenho suores frios e penso na morte sentada aos pés daquela cama. Depois a vida continua, como sempre. Esqueço tudo, vou sair à noite, discuto com o meu namorado, fazemos as pazes. No dia seguinte telefona-me a minha colega. Morreu rodeado pela família, diz-me. Ninguém nos prepara para isto, acrescenta. Ela também se foi embora. É verdade. Ensinaram-nos a salvar, ensinaram-nos a agir, mas nunca ninguém nos ensinou a ficar sentados como aquela enfermeira, lado a lado com a morte, uma mão no cabelo e a outra na mão dele... até ao fim.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Não sei quem é que se lembrou de dar um nome ao recipiente para onde escorrem os drenos torácicos. Alguém se lembrou. Provavelmente o meu chefe. Adiante. Toda a gente chama a esse recipiente o Bobby. Os miúdos adoram. Os miúdos têm essa característica incrível de adorar pequenos pormenores, que nós, os adultos, vemos e vivemos como verdadeiras tragédias. Eles não. São operados ao coração, têm de andar com uma caixinha atrás, presa a eles por uns tubos que drenam sangue, e eis que a caixa é o Bobby e tudo isto se torna, de repente e inexplicavelmente, divertidíssimo. Pois bem. Já estão a ver qual é o problema aqui. A partir do momento em que a criança conhece o Bobby, que não é uma simples caixa incómoda e desagradável, mas o Bobby (o nome confere-lhe uma faceta de animal de estimação...), como retirar esse pequeno prazer à criança? Em suma. No outro dia, fui retirar o Bobby ao R., que chorou desalmadamente, em pânico. Afinal não custou assim tanto... pensou ele no final, enquanto enxugava as lágrimas. Eu a olhar para ele e a contar em contagem decrescente... 3, 2, 1... logo ele: Onde está o meu Bobby? o que é que fizeram ao meu Bobby?! Pai, roubaram-me o Bobby!!

terça-feira, 4 de maio de 2010

Companheirismo

Chamávamos-lhes a turminha dos quatro. Andavam sempre de mãos dadas, aos pares. Menino com menina. Quando foi para retirar os fios de pacemaker, foram todos em fila indiana. A primeira foi a C.. O cenário foi o que já se esperava. Chorou, chorou, chorou e, no final, eu Quem foi a menina mais bonita do mundo? Quem é que se portou muito, muito bem? E ela, por entre snifadelas, ainda com a lágrima no canto do olho Fui eu... Daí baixa a t-shirt, recompõe o cabelo e segue-me. Nesta altura já estou eu ao lado do segundo da fila, o R., assustadíssimo, pelo sim, pelo não, sei lá o que me vão fazer, o melhor é berrar a alto e a bom som. Aí a C. surpreende-me, agacha-se ao lado do R. e diz com um tom de voz um tanto ou quanto autoritário Vá, R., não custa nada e tem de ser. Esta era a fase em que eu dizia que ele, com medo de ser considerado mais medricas do que uma rapariga, se tinha portado bem. Não, não portou. Mas durante todo o tempo que eu estive naquilo, ela não olhou para o lado, nem se mexeu. E ele agarrou a mão dela na dele até ao fim.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Poder de argumentação

Há miúdos que, não obstante medirem menos de metro e meio de altura, têm um poder de argumentação fantástico. Quando nos deparamos com uma destas situações, a discussão, porque temos forçosamente que a ganhar, acaba invariavelmente de uma forma injusta para a criança, connosco a abusarmos do poder dos nossos cabelos brancos (sim, já tenho cabelos brancos...) para dizer qualquer coisa pouco convincente, do género: Eu tenho razão, porque sim. Pois foi exactamente o que aconteceu no outro dia quando um rapazito de 6 anos me pediu encarecidamente para eu não lhe tirar os drenos, não por simples teimosia ou porque tivesse medo, como ele me garantiu, mas porque se tinha afeiçoado aos ditos tubos e porque é que eu os tinha que tirar, já que ele se encarregava de os levar para casa e de fazer ele pessoalmente o penso todos os dias para o resto da vida dele. Olhei para o miúdo, pensei durante dois segundos, e disse: Boa tentativa... Mas agora vamos lá tirar esses drenos! Mais uma vez, fiz batota, claro. Ele obviamente tinha ganho a discussão mas, no final, foi feita a minha vontade. Quão injusta pode ser a vida quando se tem 6 anos?

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O que muitos médicos não sabem e que não vem no CV

"We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. And medicine, law, business, engineering, these are noble pursuits and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for. To quote from Whitman, "O me! O life!... of the questions of these recurring; of the endless trains of the faithless... of cities filled with the foolish; what good amid these, O me, O life?" Answer. That you are here - that life exists, and identity; that the powerful play goes on and you may contribute a verse. That the powerful play *goes on* and you may contribute a verse. What will your verse be?" Dead Poets Society, 1989

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sempre sube

Olho para a senhora de 48 anos sentada à minha frente. Os meus doentes costumam ter um décimo desta idade e, frequentemente, menos do que isso. Imagino 10 bebés empoleirados em cima dos ombros uns dos outros que, no conjunto, fariam o tamanho da doente. Mas ela já vai lançada e, por isso, rapidamente os bebés se desfazem e eu começo a ouvi-la. Doutora, eu sempre sube que tinha um sopro. Sempre sube. Ainda era solteira quando sube que tinha um sopro e, entretanto, já tive 3 filhos e já fui operada 2 vezes, veja lá. Também sempre me cansei, mas eu pensei que isso fosse de trabalhar o dia inteiro com a enxada, sabe? Eu faço agricultura e é um trabalho muito duro, a enxada. E por isso nunca falei a ninguém do sopro. Pois que vai a minha médica de família aqui há uns tempos, ouviu o sopro e mandou-me para o médico do coração e ele é que me mandou para aqui. A senhora já tem isto há 48 anos, dona G., disse ele. Disse mesmo assim: a senhora já tem isto há 48 anos, dona G.
O que a senhora G. já tem há 48 anos é um buraco no coração do tamanho de uma amêndoa. O buraco fica entre as duas aurículas e deixa passar sangue que, em condições normais, iria para os pulmões e não para o corpo. Passando uma noite no hospital e fazendo um procedimento relativamente simples, o problema fica resolvido. Sinto um misto de alegria e tristeza. Podia ser mãe ou mesmo avó de um dos meus doentes e passou a vida cansada, aceitando o facto com naturalidade, não se queixando nunca, nunca deixando de trabalhar. Apesar disso, ainda é jovem. Tem 48 anos e a sua nova vida estás prestes a começar.