domingo, 28 de março de 2010

The glad game

Pergunto-me o que diria a Pollyanna nesta situação. Qual é o lado positivo de ter uma criança com cardiopatia? Não há dúvida de que todo um conjunto de problemas desaparece automaticamente. Quem passa fome também não se preocupa com a avaria do jacuzzi. Até há umas semanas a minha criança era normal, diz-me a mãe. Como outra criança qualquer. Falava, brincava, comia sozinha. Às vezes apetece-me atirar a cara para o lado, como a Pollyanna faz na última cena do filme, e dizer: "It's a stupid game (the glad game). I don't want to play it anymore."

sexta-feira, 26 de março de 2010

Coração a brincar

A fazer eco a uma menina de 3 anos:
- Olha, estás a ver, isto é o teu coração. Tens aqui 4 buracos e isto azul e vermelho é o teu sangue. Dúvidas?
- Onde está o meu coração verdadeiro?

Em treino

Claro que, para ser sincera, eu sozinha ainda faço muito pouco. Mal sabia eu, quando fui para Medicina, que este curso era ad eternum, ou talvez não ad eternum (sempre tive tendência para ser um pouco melodramática), mas pelo menos ad 31 anos, isto se não houver filhos pelo meio (não há...), chumbos (não houve...) ou outras intercorrências que teriam elevado a fasquia dos 31 para uma idade que, digam o que disserem (ah, em todas as profissões temos sempre de estar actualizados!), não se coaduna com fazer exames e estudar pelo livro, 12h por dias durante meses, como se estivéssemos na escolinha. No outro dia o meu chefe repreendeu-me, dizendo, não publicas porque és uma calona. Calona. Em dois segundos revi o meu percurso escolar, a primária onde ajudava os alunos mais fracos a acabarem os testes, a escola alemã onde ganhava anualmente o prémio da melhor aluna, a escola da cidade universitária onde era provavelmente a única que fazer os trabalhos de casa, os exames nacionais em que tive 100%, os exames na faculdade que fiz fielmente sempre em primeira época, o exame do Harrison para o qual estudei durante um ano, finalmente a especialidade, um horário claramente superior às 40h do papel, já para não falar em exames, bancos pagos em horas incómodas... e tudo bem, eu gosto, não me queixo. Mas no fim de isto tudo o que é que eu sou?... Uma calona. Claro. Não consigo pensar em nenhuma palavra que descreva tão bem o meu percurso até aqui. Porque ao meu lado há quem tenha passado exactamente por aquilo que eu passei, mas que continua a ser espectacular e a escrever e a publicar e a transpôr todos os limites possíveis. "Ah, mas foi a profissão que escolheste!" É verdade, mas relembro, que eu vim parar aqui por puro engano. A sério que adorava saber... Afinal, de que massa são feitos os meus colegas?

Coração amarrotado

Como eu vim aqui parar é puro mistério. Durante toda a minha infância e adolescência bastava-me pensar numa gota de sangue que caía redonda no meio do chão, e hoje estou sentada a fazer ecos a uma miúda ruiva de 4 anos que esburaquei ontem à tarde. Sentimentos em relação a isso? Algum orgulho e satisfação pessoal por a menina estar bem agora e olhar espantada para o eco e fazer-me todo um role de perguntas, para concluir no final: "Muito giro, já percebi tudo.", sair da maca de um salto, ainda com creme no peito, eu espantada a olhar para ela, e ela já a caminho de uma folha de papel onde se apressa a desenhar um coração daqueles perfeitos, com duas partes simétricas, que desenhávamos em miúdos e que eu já não via há séculos, amarrotar o papel, dar-mo e rematar com "Este era o meu coração. Um coração amarrotado.". Alisa a folha por entre as minhas mãos e acrescenta triunfante "E isto foi o que tu fizeste, alisaste-o!" Sorri com satisfação. Eu própria não o teria dito melhor.