segunda-feira, 10 de maio de 2010

Não sei quem é que se lembrou de dar um nome ao recipiente para onde escorrem os drenos torácicos. Alguém se lembrou. Provavelmente o meu chefe. Adiante. Toda a gente chama a esse recipiente o Bobby. Os miúdos adoram. Os miúdos têm essa característica incrível de adorar pequenos pormenores, que nós, os adultos, vemos e vivemos como verdadeiras tragédias. Eles não. São operados ao coração, têm de andar com uma caixinha atrás, presa a eles por uns tubos que drenam sangue, e eis que a caixa é o Bobby e tudo isto se torna, de repente e inexplicavelmente, divertidíssimo. Pois bem. Já estão a ver qual é o problema aqui. A partir do momento em que a criança conhece o Bobby, que não é uma simples caixa incómoda e desagradável, mas o Bobby (o nome confere-lhe uma faceta de animal de estimação...), como retirar esse pequeno prazer à criança? Em suma. No outro dia, fui retirar o Bobby ao R., que chorou desalmadamente, em pânico. Afinal não custou assim tanto... pensou ele no final, enquanto enxugava as lágrimas. Eu a olhar para ele e a contar em contagem decrescente... 3, 2, 1... logo ele: Onde está o meu Bobby? o que é que fizeram ao meu Bobby?! Pai, roubaram-me o Bobby!!

terça-feira, 4 de maio de 2010

Companheirismo

Chamávamos-lhes a turminha dos quatro. Andavam sempre de mãos dadas, aos pares. Menino com menina. Quando foi para retirar os fios de pacemaker, foram todos em fila indiana. A primeira foi a C.. O cenário foi o que já se esperava. Chorou, chorou, chorou e, no final, eu Quem foi a menina mais bonita do mundo? Quem é que se portou muito, muito bem? E ela, por entre snifadelas, ainda com a lágrima no canto do olho Fui eu... Daí baixa a t-shirt, recompõe o cabelo e segue-me. Nesta altura já estou eu ao lado do segundo da fila, o R., assustadíssimo, pelo sim, pelo não, sei lá o que me vão fazer, o melhor é berrar a alto e a bom som. Aí a C. surpreende-me, agacha-se ao lado do R. e diz com um tom de voz um tanto ou quanto autoritário Vá, R., não custa nada e tem de ser. Esta era a fase em que eu dizia que ele, com medo de ser considerado mais medricas do que uma rapariga, se tinha portado bem. Não, não portou. Mas durante todo o tempo que eu estive naquilo, ela não olhou para o lado, nem se mexeu. E ele agarrou a mão dela na dele até ao fim.