Olho para a senhora de 48 anos sentada à minha frente. Os meus doentes costumam ter um décimo desta idade e, frequentemente, menos do que isso. Imagino 10 bebés empoleirados em cima dos ombros uns dos outros que, no conjunto, fariam o tamanho da doente. Mas ela já vai lançada e, por isso, rapidamente os bebés se desfazem e eu começo a ouvi-la. Doutora, eu sempre sube que tinha um sopro. Sempre sube. Ainda era solteira quando sube que tinha um sopro e, entretanto, já tive 3 filhos e já fui operada 2 vezes, veja lá. Também sempre me cansei, mas eu pensei que isso fosse de trabalhar o dia inteiro com a enxada, sabe? Eu faço agricultura e é um trabalho muito duro, a enxada. E por isso nunca falei a ninguém do sopro. Pois que vai a minha médica de família aqui há uns tempos, ouviu o sopro e mandou-me para o médico do coração e ele é que me mandou para aqui. A senhora já tem isto há 48 anos, dona G., disse ele. Disse mesmo assim: a senhora já tem isto há 48 anos, dona G.
O que a senhora G. já tem há 48 anos é um buraco no coração do tamanho de uma amêndoa. O buraco fica entre as duas aurículas e deixa passar sangue que, em condições normais, iria para os pulmões e não para o corpo. Passando uma noite no hospital e fazendo um procedimento relativamente simples, o problema fica resolvido. Sinto um misto de alegria e tristeza. Podia ser mãe ou mesmo avó de um dos meus doentes e passou a vida cansada, aceitando o facto com naturalidade, não se queixando nunca, nunca deixando de trabalhar. Apesar disso, ainda é jovem. Tem 48 anos e a sua nova vida estás prestes a começar.
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