quinta-feira, 22 de abril de 2010

Poder de argumentação

Há miúdos que, não obstante medirem menos de metro e meio de altura, têm um poder de argumentação fantástico. Quando nos deparamos com uma destas situações, a discussão, porque temos forçosamente que a ganhar, acaba invariavelmente de uma forma injusta para a criança, connosco a abusarmos do poder dos nossos cabelos brancos (sim, já tenho cabelos brancos...) para dizer qualquer coisa pouco convincente, do género: Eu tenho razão, porque sim. Pois foi exactamente o que aconteceu no outro dia quando um rapazito de 6 anos me pediu encarecidamente para eu não lhe tirar os drenos, não por simples teimosia ou porque tivesse medo, como ele me garantiu, mas porque se tinha afeiçoado aos ditos tubos e porque é que eu os tinha que tirar, já que ele se encarregava de os levar para casa e de fazer ele pessoalmente o penso todos os dias para o resto da vida dele. Olhei para o miúdo, pensei durante dois segundos, e disse: Boa tentativa... Mas agora vamos lá tirar esses drenos! Mais uma vez, fiz batota, claro. Ele obviamente tinha ganho a discussão mas, no final, foi feita a minha vontade. Quão injusta pode ser a vida quando se tem 6 anos?

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O que muitos médicos não sabem e que não vem no CV

"We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. And medicine, law, business, engineering, these are noble pursuits and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for. To quote from Whitman, "O me! O life!... of the questions of these recurring; of the endless trains of the faithless... of cities filled with the foolish; what good amid these, O me, O life?" Answer. That you are here - that life exists, and identity; that the powerful play goes on and you may contribute a verse. That the powerful play *goes on* and you may contribute a verse. What will your verse be?" Dead Poets Society, 1989

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sempre sube

Olho para a senhora de 48 anos sentada à minha frente. Os meus doentes costumam ter um décimo desta idade e, frequentemente, menos do que isso. Imagino 10 bebés empoleirados em cima dos ombros uns dos outros que, no conjunto, fariam o tamanho da doente. Mas ela já vai lançada e, por isso, rapidamente os bebés se desfazem e eu começo a ouvi-la. Doutora, eu sempre sube que tinha um sopro. Sempre sube. Ainda era solteira quando sube que tinha um sopro e, entretanto, já tive 3 filhos e já fui operada 2 vezes, veja lá. Também sempre me cansei, mas eu pensei que isso fosse de trabalhar o dia inteiro com a enxada, sabe? Eu faço agricultura e é um trabalho muito duro, a enxada. E por isso nunca falei a ninguém do sopro. Pois que vai a minha médica de família aqui há uns tempos, ouviu o sopro e mandou-me para o médico do coração e ele é que me mandou para aqui. A senhora já tem isto há 48 anos, dona G., disse ele. Disse mesmo assim: a senhora já tem isto há 48 anos, dona G.
O que a senhora G. já tem há 48 anos é um buraco no coração do tamanho de uma amêndoa. O buraco fica entre as duas aurículas e deixa passar sangue que, em condições normais, iria para os pulmões e não para o corpo. Passando uma noite no hospital e fazendo um procedimento relativamente simples, o problema fica resolvido. Sinto um misto de alegria e tristeza. Podia ser mãe ou mesmo avó de um dos meus doentes e passou a vida cansada, aceitando o facto com naturalidade, não se queixando nunca, nunca deixando de trabalhar. Apesar disso, ainda é jovem. Tem 48 anos e a sua nova vida estás prestes a começar.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Dia das mentiras

Ainda ninguém me pregou uma partida hoje e o dia está quase a acabar, pensei eu minutos antes de o telefone da urgência tocar no seu toque histérico e irritante que costumam ter os telemóveis das urgências e que eu acho que tem como intuito accionar o botão do sistema nervoso simpático (pai da adrenalina e congéneres) antes mesmo de ouvir a má notícia. Rápido, doutora, o bebé deixou de respirar!, disseram do outro lado. Eu lá fui a correr, mas claro que isto não seria mais do que uma partida, uma mentirinha inocente do dia das mentiras. Eu chegaria lá abaixo, suada e ofegante, e estariam todos a congratular o engraçadinho criador da ideia. Era eu a descer as escadas e eles já lá em baixo a rirem-se da minha ingenuidade. Eu a entrar assustada sala adentro e o bebé a dormir confortavelmente ao colo de um enfermeiro. Mas não. Quando chego à sala, o cenário era, estranhamente, o que sinteticamente me tinham descrito ao telefone. Realmente. Bebé cardiopata não brinca em serviço. Nem no dia das mentiras.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Segundas oportunidades

Ainda bem que não me enforquei... Doutora, o bebé está a chorar... Lá fui eu, escada abaixo. E, vejam lá, o mesmo bebé, na mesma noite, a necessitar outra vez de um tubo goela abaixo (um tubo maior que não o deixasse chorar) e eu a pô-lo sem hesitações, sem desculpe, colega. Na maior. Parece que, afinal, ainda não sou um caso desesperado! E sempre há anti-depressivos de acção rápida; chamam-se segundas oportunidades!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Falhar

Não consegui entubar um bebé quando foi preciso. A anestesista ao meu lado substituiu-me, sem grande paciência, logo a seguir e fez o seu trabalho sem dificuldade nenhuma. Desculpe lá, colega, acrescentou no final. Odeio que me chamem de colega. Aos enfermeiros avisei antes de subir: Qualquer coisa, eu estarei lá em cima a enforcar-me. Devia haver antidepressivos de acção rápida...