sexta-feira, 26 de março de 2010

Em treino

Claro que, para ser sincera, eu sozinha ainda faço muito pouco. Mal sabia eu, quando fui para Medicina, que este curso era ad eternum, ou talvez não ad eternum (sempre tive tendência para ser um pouco melodramática), mas pelo menos ad 31 anos, isto se não houver filhos pelo meio (não há...), chumbos (não houve...) ou outras intercorrências que teriam elevado a fasquia dos 31 para uma idade que, digam o que disserem (ah, em todas as profissões temos sempre de estar actualizados!), não se coaduna com fazer exames e estudar pelo livro, 12h por dias durante meses, como se estivéssemos na escolinha. No outro dia o meu chefe repreendeu-me, dizendo, não publicas porque és uma calona. Calona. Em dois segundos revi o meu percurso escolar, a primária onde ajudava os alunos mais fracos a acabarem os testes, a escola alemã onde ganhava anualmente o prémio da melhor aluna, a escola da cidade universitária onde era provavelmente a única que fazer os trabalhos de casa, os exames nacionais em que tive 100%, os exames na faculdade que fiz fielmente sempre em primeira época, o exame do Harrison para o qual estudei durante um ano, finalmente a especialidade, um horário claramente superior às 40h do papel, já para não falar em exames, bancos pagos em horas incómodas... e tudo bem, eu gosto, não me queixo. Mas no fim de isto tudo o que é que eu sou?... Uma calona. Claro. Não consigo pensar em nenhuma palavra que descreva tão bem o meu percurso até aqui. Porque ao meu lado há quem tenha passado exactamente por aquilo que eu passei, mas que continua a ser espectacular e a escrever e a publicar e a transpôr todos os limites possíveis. "Ah, mas foi a profissão que escolheste!" É verdade, mas relembro, que eu vim parar aqui por puro engano. A sério que adorava saber... Afinal, de que massa são feitos os meus colegas?

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