sexta-feira, 26 de março de 2010

Coração amarrotado

Como eu vim aqui parar é puro mistério. Durante toda a minha infância e adolescência bastava-me pensar numa gota de sangue que caía redonda no meio do chão, e hoje estou sentada a fazer ecos a uma miúda ruiva de 4 anos que esburaquei ontem à tarde. Sentimentos em relação a isso? Algum orgulho e satisfação pessoal por a menina estar bem agora e olhar espantada para o eco e fazer-me todo um role de perguntas, para concluir no final: "Muito giro, já percebi tudo.", sair da maca de um salto, ainda com creme no peito, eu espantada a olhar para ela, e ela já a caminho de uma folha de papel onde se apressa a desenhar um coração daqueles perfeitos, com duas partes simétricas, que desenhávamos em miúdos e que eu já não via há séculos, amarrotar o papel, dar-mo e rematar com "Este era o meu coração. Um coração amarrotado.". Alisa a folha por entre as minhas mãos e acrescenta triunfante "E isto foi o que tu fizeste, alisaste-o!" Sorri com satisfação. Eu própria não o teria dito melhor.

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