terça-feira, 28 de agosto de 2012
No mundo da Medicina (como de resto em qualquer parte, suponho...) há dois grupos de pessoas. As pessoas que fazem o mundo avançar e os outros. Eu, claramente, faço parte do segundo grupo. O meu chefe faz parte do primeiro. Fico contente que existam pessoas que façam o mundo avançar. Essas são as pessoas que descobrem a cura para o cancro, desenvolvem vacinas contra a S.I.D.A., salvam doentes, escrevem artigos, enfim... Estão a ver o género. A verdade é que a maior parte do meu tempo é passada a fazer outro tipo de coisas. À cabeça, relatórios. Os relatórios ocupam um lugar central na vida de qualquer interno ou recém-especialista. São sempre para ontem e, como Portugal vive à conta de "papéis", são sempre muito urgentes e essenciais para a maior parte dos doentes que, em média, precisa de três relatórios por ano. Talvez a segunda actividade que me ocupa mais tempo é a luta constante por vagas. Não há doente que se consiga salvar sem antes batalhar um mundo inteiro por uma vaga nos cuidados intensivos. E para haver essa vaga nos cuidados intensivos, o cabo dos trabalhos para arranjar uma vaga na enfermaria. Troca-se o doente da nossa enfermaria para a enfermaria de adultos, vem o doente dos intensivos para a nossa enfermaria e eis que aparece então a vaga dos intensivos, isto tudo com muitos "por favor" e "desculpe" como se do nosso próprio filho se tratasse. Enfim... Um truca-truca de dontes escada acima, escada abaixo, tal qual as escadas rolantes do metro. Num lugar de menor destaque, mas não desprezável, lá estou eu a esclarecer mal-entendidos, das enfermeiras com o meu chefe, dos doentes com a administrativa e dos outros colegas comigo. Tenho ideia que se falássemos línguas diferentes, não mudava grande coisa. Aqui ninguém se entende, pior, entende-se mal, aplica juízos de valor e acabamos todos numa grande embrulhada, de costas voltadas uns para os outros. E, por fim, nas horas vagas, vejo doentes.
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Moro em São Paulo, Brasil. Cheguei ao teu blog totalmente por acaso. Buscava eu respostas a perguntas antigas que havia escrito num blog pessoal de duas ou três postagens há alguns anos. Caí por acaso num blog que gostei muito &... life goes on.. e então no seu. Sou anestesista. E atualmente estou lidando com burnout. Também não sou das pessoas que fazem o mundo acontecer (risos) mas que tentam exaustivamente fazer do mundo um lugar melhor. E estou de fato exausta. Suas palavras me lembraram que provavelmente eu não estou sozinha mesmo que, no meu ambiente, eu não consiga comunicar o que é importante pra mim. Obrigada. E, se possível, volte a escrever... Desejo-lhe toda realização desta Vida.
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